PROJETO LIVRO AZUL

1952: o ano em que óvnis sobrevoaram a Casa Branca

Quando uma série de estranhos avistamentos foram relatados nos céus de Washington D.C., em 1952, a imprensa e o público exigiam respostas. Seriam aeronaves poderosas, que muitas vezes ultrapassam jatos da Força Aérea? Seriam armas nucleares, que faziam parte da ameaça vermelha que assolava o país na época? Ou seriam evidências de algo muito mais misterioso?

Nova série: PROJETO LIVRO AZUL, SÁBADO, ÀS 22h30

Os avistamentos de Washington D.C. de julho de 1952 têm um lugar cativo na história dos objetos voadores não identificados. A maioria dos jornais dos Estados Unidos estavam noticiando um grande número de avistamentos, tanto por civis quanto militares – tantos que uma unidade da Força Aérea foi enviada para investigá-los. O que eles encontraram – ou não encontraram – deram base a muitas teorias da conspiração sobre uma operação do governo para esconder evidências de vida extraterrestre.

"Óvni mania"

Tudo começou em 1947, quando um piloto de resgate, chamado Kenneth Arnold, relatou ter visto “nove objetos em forma de disco, voando como gansos, em uma linha diagonal” a uma velocidade perto dos 1500 km/h, próximo a Mount Rainier, no estado de Washington. Nas semanas seguintes, “discos voadores” foram vistos em 40 outros estados.

Em nome da segurança nacional, o general da Força Aérea Nathan Twining lançou o Projeto Sign (originalmente chamado de Projeto Saucer), em 1948, o primeiro programa da inteligência militar para coletar informações sobre avistamentos de óvnis. A maioria deles foi explicada como boatos, aeronaves conhecidas ou fenômenos naturais. Mas muitos casos continuaram inexplicados.

Em 1952, a unidade de investigação de óvnis foi chamada de Projeto Livro Azul. Ele era liderada pelo capitão Edward Ruppelt e ficava situada na base aérea de Wright-Patterson, em Dayton, Ohio. Ruppelt e sua equipe provavelmente teriam continuado a investigar pouco mais de uma dezena de avistamentos por mês se não fosse por uma edição da revista Life, em 1952. Acima da foto de Marilyn Monroe, havia uma manchete igualmente chamativa: “Temos um Caso de Discos Interplanetários”.

O artigo, escrito com a cooperação de Ruppelt, explicava o interesse da Força Aérea nos óvnis, formando um caso convincente de que os 10 inexplicados incidentes óvnis seriam objetos de outro planeta. Como um engenheiro espacial que trabalhava em projetos “secretos” dos EUA disse à Life: “Estou completamente convencido de que eles têm origem em outro mundo”.

De acordo com o The Washington Post, o número de avistamentos de óvnis relatados à Força Aérea aumentou em mais de seis vezes: de 23, em março de 1952, para 148, em junho do mesmo ano. Em julho, as condições estavam propícias para a “Óvni mania”: uma ansiedade generalizada provocada pela Guerra Fria e a extensa cobertura da mídia sobre incidentes inexplicáveis ​​com óvnis.

Objetos misteriosos sobrevoando a Casa Branca

Pouco antes da meia-noite de sábado, 19 de julho de 1952, o controlador de tráfego aéreo Edward Nugent, do Aeroporto Nacional de Washington, avistou sete objetos em seu radar, longe de qualquer trajetória de voo civil ou militar. Ele ligou para seu supervisor e brincou, falando de uma “frota de discos voadores”. Ao mesmo tempo, mais dois controladores notaram uma estranha luz brilhante pairando à distância, que de repente se afastou em uma velocidade incrível.

Na base aérea vizinha, de Andrews, os operadores de radar estavam recebendo os mesmos sinais não identificados – lentos e agrupados no início, e depois indo embora em velocidades que ultrapassavam os 10.000 km/h. De sua torre, um controlador de Andrews viu o que ele descreveu como uma “bola de fogo, laranja, com uma cauda”. Um piloto comercial, sobrevoando a Virgínia e Washington, relatou seis luzes brilhantes, “como estrelas cadentes sem caudas”.

Quando operadores de radar da National Airlines viram os objetos passando pelos prédios da Casa Branca e do Capitólio, as brincadeiras sobre óvnis acabaram. Dois jatos interceptadores F-94 foram enviados ao local, mas cada vez que se aproximavam e apareciam nas telas dos radares, os misteriosos sinais desapareciam. Ao amanhecer de 20 de julho, não havia mais rastros dos objetos.

“Eu tentei fazer contato”

Ninguém disse nada sobre os avistamentos a Ruppelt, o investigador líder do Projeto Livro Azul. Ele descobriu somente alguns dias depois, quando foi para Washington, D.C. e leu as notícias. Ruppelt tentou falar com os operadores de radar e controladores de tráfego aéreo, mas o governo negou a ele um carro ou mesmo um táxi. Frustrado, ele voltou para Ohio.

No sábado seguinte, os óvnis estavam de volta à capital do país. Novamente, Ruppelt descobriu o caso por meio de repórteres, convocando imediatamente dois oficiais da Força Aérea para conferir a situação na National. Os mesmos sinais de radar estavam de volta, e os operadores não sabiam se a causa poderia ser uma inversão térmica, muito comum nos meses quentes e abafados de verão em D.C.

Quando ocorre a inversão térmica, os sinais de radar podem, erroneamente, mostrar objetos que estão próximos ao chão como se estivessem no ar. No entanto, os colegas de Ruppelt, da Força Aérea, estavam convencidos de que os objetos na tela do radar não eram miragens, mas algum tipo de aeronave.

Para ter certeza, mais dois jatos F-94 foram enviados ao local, e, novamente, quando chegavam próximo aos objetos, eles sumiam do radar. Finalmente, um dos pilotos avistou uma luz brilhante e a perseguiu. “Tentei fazer contato com os objetos a menos de 300 metros de distância”, disse o piloto. “Eu vi muitas luzes brilhantes. Estava em velocidade máxima, mas mesmo assim eu não as alcancei. Parei de segui-las porque vi que não havia chance de ultrapassá-las”.

Uma teoria para evitar o pânico em massa

No outro dia, os jornais traziam manchetes como “Discos Voadores Sobrevoam a Capital” e “Jatos Perseguem os Fantasmas de D.C.”. O pânico do público sobre os avistamentos foi tão grande que o presidente Harry Truman buscou ajuda para encontrar respostas. Quando Ruppelt foi chamado, ele disse que as estranhas luzes poderiam ter sido causadas por uma inversão térmica, mas era preciso uma investigação mais aprofundada para explicar tanto as imagens dos radares quanto os relatos de testemunhas.

Mas antes de investigar mais a fundo, a Força Aérea convocou uma entrevista coletiva, decidindo – sem avisar Ruppelt ou a equipe do Projeto Livro Azul – que a melhor resposta aos avistamentos seria uma explicação “fácil de engolir”.

A cada pergunta feita, o general John Samford­­­­ retornava à explicação da inversão térmica, mesmo que Ruppelt tenha tido outra conclusão.

“Os investigadores tinham excluído a questão da inversão”, diz Alejandro Rojas, editor do site sobre óvnis OpenMinds. “Eles examinaram a situação. Os operadores de radar disseram: ‘Inversões acontecem. Nós sabemos como elas são. Isso não é uma inversão. Não é nada parecido”.

Para a infelicidade de Ruppelt, a entrevista coletiva da Força Aérea funcionou exatamente como o planejado. Os jornais publicaram a história da inversão térmica e o público pareceu aceitá-la. Em seu livro, publicado em 1956, “The Report on Unidentified Flying Objects” ("Relatório sobre Objetos Voadores não Identificados"), Ruppelt conta que, após essa coletiva de imprensa, os avistamentos de óvnis caíram de 50 por dia para 10.

Céticos, no entanto, não estavam satisfeitos com a resposta do governo. Muitos acusaram a Força Aérea e os investigadores do Projeto Livro Azul de comportamento desonesto e de manter informações em segredo. Foi somente em 1985 que essas pessoas souberam que o que aconteceu foi na verdade um círculo de ignorância.

“Os incidentes em Washington ilustram perfeitamente o que o governo estava realmente escondendo”, diz Nick Pope, um jornalista especializado em óvnis que trabalhava no Ministério da Defesa Britânico. “Não é uma situação na qual as autoridades conspiram para manter informações em segredo sobre óvnis, mas sim uma na qual o governo quer esconder das pessoas que não tem todas as respostas”.


Fonte: History.com

Imagem: Shutterstock.com