CRIMES

Amigo só no retrato: a polêmica foto de Jesse James ao lado do futuro assassino

Mais de 130 anos depois de Robert Ford ter assassinado Jesse James (1847-1882), uma artista forense afirma que é autêntica uma fotografia ferrótipo que supostamente mostra o fora da lei ao lado do homem que o traiu e o matou. Jesse James sobreviveu a vários tiroteios e a duas balas no peito, mas não conseguiu resistir a uma pequena tarefa doméstica. Enquanto o famoso fora da lei do Velho Oeste ajeitava e espanava um quadro pendurado na parede da sala de sua casa alugada em St. Joseph, no Missouri, em 3 de abril de 1882, Robert Ford se colocou por trás dele e sacou seu revólver. Um novo membro da gangue de Jesse, que tinha roubado bancos, diligências e trens por todo o Missouri e os estados vizinhos, Ford puxou o gatilho e disparou fatalmente na nuca de Jesse.

Agora, depois de Ford ter traído seu companheiro de gangue por uma recompensa em dinheiro e um perdão das autoridades, uma fotografia de corpo inteiro que supostamente mostra Jesse sentado ao lado de seu futuro assassino foi legitimada por uma renomada artista forense. A fotografia ferrótipo sem data teria sido de John e Pauline Higgins, um casal que abrigava membros da gangue de Jesse em sua fazenda em Cedar County, no Missouri, durante a década de 1870. A foto passou por cinco gerações da família até ficar em posse de Sandra Mills, de 40 anos, que vive na área rural de Washington.


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A imagem em questão em que Jesse James aparece ao lado do seu futuro assassino Robert Ford


Em uma entrevista concedida ao Houston Chronicle, Sandra disse que sua avó, Isabelle Klemann, contou-lhe histórias sobre as ligações de seus ancestrais à gangue de Jesse James e que guardou o ferrótipo embrulhado em um lenço dentro da gaveta de uma cômoda. “Esse é Jesse James e o covarde Robert Ford”, Klemman disse a Mills sobre a fotografia, a qual ela deixou para sua neta três anos antes de sua morte, em 2006.

Segundo Sandra, sua avó esperava que a neta pudesse vender a relíquia da família e comprar terras com o lucro da transação. No entanto, Sandra falou com alguns colecionadores que se mostraram céticos em relação à autenticidade da fotografia. “Eu sou apenas uma menina da fazenda, então ninguém quis me dar ouvidos”, ela contou ao Houston Chronicle. “Não temos o respeito de ninguém”.



Artista forense



No início deste ano, Sandra recorreu a Lois Gibson, uma das melhores artistas forenses dos EUA e analista do Departamento de Polícia de Houston, para ajudá-la. Ao longo de 33 anos de carreira, Lois trabalhou em mais de 4.500 casos, e seus esboços, baseados em relatos de testemunhas, já ajudaram a identificar mais de 1.200 pessoas. A qualificada artista forense também fez incursões no campo da história ao identificar o marinheiro que beijou a enfermeira no Times Square, em uma foto emblemática tirada no fim da Segunda Guerra Mundial, e ao legitimar uma foto rara de outro famoso fora da lei – Billy the Kid.



Na imagem acima, o cômodo em que Jesse James foi baleado e morto em sua própria casa.


Sandra enviou por e-mail uma foto digitalizada do ferrótipo para Lois, que passou uma semana analisando todos os detalhes dos dois homens retratados e os comparando a fotografias autênticas tanto de Jesse James quanto de Robert Ford. Quando a artista forense sobrepôs quatro imagens de Jesse no ferrótipo, ela descobriu que todos os traços faciais – desde a linha limite do cabelo até o formato das narinas e a distância entre o nariz e o lábio superior – combinavam. Lois observou também que as fotos de Jesse James mostram que seu olho esquerdo é maior e sua sobrancelha esquerda é mais comprida que a da direita, e que o homem no ferrótipo exibe as mesmas e pequenas anomalias. “Todos os traços batem quase perfeitamente”, escreveu Lois na sua página do Facebook. “O nariz, os olhos, os lábios, a testa e o queixo são do mesmo tamanho, formato e posição em relação aos outros traços faciais”.

Lois também viu correlações entre o ferrótipo e outras fotografias de corpo inteiro de Jesse sentado na cadeira que iam além dos estilos iguais da camisa e das calças.  “Essas imagens mostram uma posição incrivelmente semelhante de mãos, braços e pernas”, ela escreveu, observando que nas fotografias dos anos 1870 e 1880 era necessário manter a posição por um minuto. “Essa posição natural do corpo tinha que ser confortável, e Jesse James repetiria caso tivesse que fazê-la por tanto tempo novamente”.

O fator decisivo para Lois foi a semelhança entre o homem sentado à esquerda na foto e o traidor do fora da lei. “O que conta muito para a afirmação que é mesmo Jesse James no ferrótipo é o fato de o homem sentado ao seu lado parecer muito com o seu conhecido companheiro de crime, Robert Ford”, ela escreveu.


Acima, retrato do assassino americano Robert Ford exibindo o revólver que usou para matar o fora da lei Jesse James em 1882.


Lois contou ao Houston Chronicle que esse projeto foi a identificação mais empolgante que ela já fez. “É isso, uma coisa enorme, como encontrar os fósseis de um tiranossauro”, ela disse.

No entanto, talvez seja necessário algo a mais para convencer os colecionadores de que esse ferrótipo é verdadeiro, e uma grande quantia de dinheiro pode estar em jogo. A única foto autenticada de Billy the Kid, por exemplo, foi vendida por US$ 2,3 milhões em um leilão, em 2011, e Bobby Livingston, vice-presidente executivo da RR Auction, disse ao Houston Chronicle que o ferrótipo poderia chegar a um valor parecido se autenticado. “É convincente”, ele disse sobre a descoberta de Gibson, “mas eu gostaria de ver mais análises”.

Mesmo assim, a artista forense não tem dúvidas sobre a identidade do homem no ferrótipo. “Eu conheço rostos por dentro e por fora, e eu trabalhei exaustivamente nisso”, afirmou Lois ao Houston Chronicle. “Eu estou certa de que é Jesse James”.


As declarações feitas pela família de Jesse James


Acima, dois retratos do fora da lei Jesse James. À esquerda, uma foto mais amplamente aceita de Jesse James. A autenticidade da imagem à direita é contestada pela James Preservation Trust.


Eric James é um membro da família James que, junto com um dos bisnetos do fora de lei, cofundou a James Preservation Trust em 2002. O objetivo é arquivar e abordar questões de veracidade no que diz respeito à história da família, e eles estão entre os historiadores de Jesse James que discordam da autenticidade da foto. Eles dizem que o ferrótipo é só mais um de uma longa fila de fraudes relacionadas ao líder da gangue.

Eric conta ao History que a James Preservation Trust recebe fotos de Jesse de duas a quatro vezes por mês. Em um longo texto no Stray Leaves, o site oficial da família de Frank e Jesse James, ele afirma que Sandra o procurou em março de 2013 para falar do ferrótipo que supostamente teria imagens de Robert Ford e Jesse James, o qual ele considerou “descaradamente falso. Eu disse a ela que aquela não poderia ser, de forma alguma, a representação dos dois homens”, declarou Eric.

Para contestar as conclusões de Lois Gibson, Eric afirma que o ferrótipo publicado por ela é a imagem reversa da que foi mostrada a ele. “Existe um princípio básico em qualquer autenticação científica”, ele diz. “Você não pode mexer na imagem”. Eric também afirma que algumas das fotografias que Lois usou como base de comparação não são 100% autênticas, incluindo uma em que o homem apresentado como Jesse James “tem os seus dedos perfeitos”, ao contrário do fora da lei, que não tinha um dos dedos indicadores. “Ela está apenas comparando uma foto falsa com outra”, ele declara.

Fonte: History.com

Imagem: Domínio Público via History.com