SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Casal de judeus sobreviventes de Auschwitz se reencontra após 72 anos nos EUA

David Wisnia e Helen Spitzer se conheceram em 1943, quando eram prisioneiros em Auschwitz, na Polônia, o maior campo de concentração controlado pelos nazistas. Os dois, que haviam sido enviados para lá por serem judeus, logo começaram um relacionamento. Apesar do plano de ficarem juntos após serem libertados, eles só se reencontram depois de mais de 70 anos.

Quando se conheceram, David tinha 17 anos e Helen 25. Ele era polonês, ela vinha da Eslováquia. Os dois foram apresentados por um conhecido, também prisioneiro. Ambos tinham certos privilégios em Auschwitz. Como tinha conhecimentos de design gráfico, Helen foi "promovida" a realizar serviços burocráticos após ter se machucado e ficado impossibilitada de fazer trabalhos braçais. David inicialmente recolhia os corpos de presos suicidas, mas acabou sendo forçado a entreter os soldados nazistas, pois era um cantor talentoso. 

Ao exercerem essas funções, eles tinham certa liberdade para circular no campo de concentração. Durante vários meses, eles davam um jeito de se encontrar com frequência. Em 1944, David e Helen tiveram seu último encontro no campo de concentração. Naquele dia, o casal combinou de se encontrar em um centro comunitário de Varsóvia depois da libertação de Auschwitz para prosseguir a vida juntos.

David foi transferido para o campo de concentração de Dachau em dezembro daquele ano. Pouco depois, Helen foi uma das últimas prisioneiras a sair de Auschwitz com vida. Durante uma marcha da morte (deslocamento de milhões de judeus entre vários campos de concentração), David conseguiu atingir um soldado nazista com uma pá e fugiu. Logo depois, ele se juntou aos combatentes das Forças Armadas dos Estados Unidos. Helen também conseguiu escapar com uma amiga em uma dessas marchas.

Após ter se unido aos soldados dos EUA, David só pensava em cruzar o Atlântico e deixar a Europa para trás. Enquanto isso, Helen foi levada para um campo de refugiados judeus na Alemanha ocupada pelos Aliados. O irônico é que David era um dos responsáveis por fornecer mantimentos para esse local, sem saber que sua namorada estava lá.

Quando finalmente foi para os Estados Unidos, David se encontrou com parentes e passou a ganhar a vida vendendo enciclopédias em Nova York. Em 1947, ele conheceu Hope, sua futura esposa. Cinco anos depois, eles se mudaram para a Filadélfia. Mais tarde, ele passou a usar seu dom musical para exercer a função de cantor litúrgico em sinagogas. Ele teve quatro filhos e seis netos. Já Helen se casou com o chefe de segurança do campo de refugiados onde estava abrigada. Durante anos, ela e o marido dedicaram anos de suas vidas a causas humanitárias e viveram um tempo na Austrália. Depois disso, ela se tornou professora de bioengenharia na Universidade de Nova York, para onde se mudou em 1967.

Desde o final da guerra, David ouvia histórias de que Helen havia sobrevivido. Muitos anos depois, quando ela já estava em Nova York, eles chegaram a marcar um encontro, mas ela acabou não aparecendo. "Descobri depois que ela decidiu que não seria uma boa ideia. Ela era casada, tinha marido", disse David. Apesar disso, ele recebia notícias dela por meio de um amigo em comum. 

Finalmente, em agosto de 2016, Helen concordou em se encontrar com David. Helen, viúva desde 1996, estava debilitada na cama, sem enxergar ou ouvir direito. No início, ela não reconheceu seu antigo namorado, mas logo depois se surpreendeu. "Os olhos dela se arregalaram, quase como se a vida tivesse voltado para ela", dise Avi Wisnia, neto de David. No encontro, David fez uma pergunta guardada por anos: Helen tinha alguma coisa a ver com o fato de ele ter sobrevivido em Auschwitz? Ela confirmou que sim. Enquanto trabalhava na área burocrática, ela evitou por cinco vezes que ele fosse enviado para a morte. Helen ainda revelou que esperou por David em Varsóvia após escapar da marcha da morte, mas ele nunca apareceu. 

No fim do encontro, David cantou para Helen uma canção húngara que ela havia ensinado a ele. Depois dessa ocasião, eles não se viram mais. Helen morreu em 2018, aos 100 anos. David planeja ir em janeiro de 2019 com a família para Auschwitz, pois foi convidado para cantar nas celebrações dos 75 anos de libertação do campo de concentração.


Fonte: New York Times

Imagem: Auschwitz Memorial and Museum, via Wikimedia Commons