SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Embaixador brasileiro desafiou Getúlio Vargas e ajudou judeus perseguidos pelo nazismo

A partir de 1933, quando os nazistas assumiram o poder na Alemanha, uma de suas principais políticas foi a perseguição sistemática aos judeus. Para evitar um destino trágico, muitos deles tiveram que fugir de lá (e, posteriormente, de territórios invadidos por forças do Terceiro Reich). Naquele mesmo ano, o governo de Getúlio de Vargas começou a emitir as chamadas "circulares secretas", que visavam justamente dificultar, ou até mesmo impedir, a entrada no Brasil de judeus que fugiam do nazismo. Mesmo assim, um diplomata brasileiro se destacou por se recusar a cumprir essas ordens. Ele se chamava Luiz Martins de Souza Dantas.

Nascido em uma família aristocrática do Rio de Janeiro, Dantas ingressou na carreira diplomática aos 20 anos, em 1897. Ao longo de sua trajetória bem-sucedida, serviu ao Ministério de Relações Exteriores em lugares como  Berna, na Suíça, São Petersburgo, na Rússia e Buenos Aires, na Argentina. Em 1919, ele assumiu a embaixada brasileira em Roma, na Itália, onde conquistou até mesmo a simpatia do ditador Benito Mussolini.

Em 1922, Dantas trocou Roma pela embaixada do Brasil em Paris, o posto mais prestigiado da diplomacia brasileira na época. Em 1933, aos 57 anos, ele se casou com Elise Mayer Stern, uma rica católica de origem judaica. Apesar de convertida ao catolicismo, ela era vista com desprezo por muitos dos colegas diplomatas de Dantas por ser considerada judia.

A perseguição aos judeus na Europa passou a se intensificar a partir de 1937. Naquele período, conseguir um visto para outro país era questão de vida ou morte. Apesar das medidas brasileiras que dificultavam a entrada de pessoas de origem judaica no Brasil, Dantas decidiu agir de acordo com sua consciência, providenciando passaportes e assinando pessoalmente os vistos. Sua atuação para ajudar os judeus se intensificou a partir de 1940, quando a embaixada brasileira na França foi transferida para Vichy, que servia de capital para o governo colaboracionista.


Dantas, entre Oswaldo Aranha e Getúlio Vargas

De acordo com o livro Diplomat Heroes of the Holocaust, de Mordecai Paldiel, Dantas procurava uma série de brechas legais para justificar a emissão de vistos para judeus. Alegando que os solicitantes eram intelectuais renomados, artistas ou investidores (mesmo quando isso não era verdade), ele autorizou a entrada de muitos judeus no Brasil. Em dezembro de 1940, o ministério das Relações Exteriores expediu uma circular (assinada pelo ministro Oswaldo Aranha) que reiterava a proibição da concessão de vistos para judeus. A partir de então, Dantas passou a assinar os papéis com datas anteriores à emissão do documento. Nessa época, ele também enviou várias cartas ao governo brasileiro fazendo críticas a Adolf Hitler, que, em suas palavras, "agia com a truculência de costume".

No final de 1941, após ter sido repreendido pelo governo brasileiro por sua liberação de vistos, Dantas tornou-se alvo de um inquérito administrativo. O processo só não foi concluído porque, no ano seguinte, o Brasil cortaria relações com a Alemanha e se juntaria aos Aliados. Em 1943, os nazistas invadiram a embaixada brasileira em Vichy e deportaram Dantas para a localidade alemã de Bad Godesburg, onde ficou preso por 14 meses.

Depois de libertado, Dantas voltou brevemente ao Brasil, onde sofreu o ostracismo até o final da Segunda Guerra (enquanto durou o Estado Novo, Vargas tratou de mantê-lo afastado da vida pública). Após o fim do conflito, retornou à Europa, se envolvendo na criação da Maison de l´Amerique Latine, em Paris. Depois, presidiu o Instituto Francês de Altos Estudos Brasileiros. Sua esposa, sofrendo de senilidade, morreu em 1953. Dantas morreria no ano seguinte, em um quarto de hotel humilde em Paris. Seu corpo foi enviado de volta para ser enterrado no Rio de Janeiro. 

Em 2003, o nome de Dantas foi inscrito no Jardim dos Justos entre as Nações, em Israel, por ajudar a salvar judeus do Holocausto. Sua história foi abordada no livro Quixote nas Trevas, do historiador Fabio Koifman e no filme Querido Embaixador, de Luiz Fernando Goulart.


Visto assinado por Dantas


Fontes: BBC e Morashá

Imagens: Yad Vashem e Reprodução