O Brasil na II Guerra

Estamos em guerra: e agora?

A terrível visão dos corpos de centenas de vítimas dos afundamentos nas praias do nordeste da costa brasileira chegou até as primeiras páginas dos jornais do país. A população revoltada foi para as ruas pedindo vingança pela ação covarde dos submarinos do Eixo. Foi o último ato para fechar o alinhamento de Vargas com Roosevelt. Em janeiro de 1943, houve o histórico encontro entre os dois líderes, ocorrido em Natal, onde asseguraram-se as patrulhas anti-submarinos em nossos mares, o reaparelhamento militar das forças brasileiras e a firme determinação de Vargas no envio de tropas para com os Aliados.

Getúlio Vargas (centro) e Roosevelt (à direita) - ambos de chapéu panamá - durante a Conferência de Natal, em Janeiro de 1943 (Agência Brasil).

Participar da guerra era o passaporte do Brasil para adentrar ao mundo desenvolvido e se posicionar ao lado das nações modernas, deixando o papel de mero coadjuvante. Roosevelt até reconheceu Vargas como um “ditador benevolente”, uma vez que estava cerrando fileiras com os Aliados. Nesta época, surgiam as bases da Organização das Nações Unidas e já se falava em globalização. O estreitamento de relações com Washington muito se deveu aos esforços do chanceler brasileiro Oswaldo Aranha, que trabalhou durante anos para que isso ocorresse, mesmo contrariando os interesses dos militares pro-fascistas que integravam o gabinete de Vargas. A História provou quem estava certo.

Restava agora o gigantesco trabalho de preparar o país para a guerra. O Brasil tinha um exército com menos de cem mil homens. A campanha de voluntários para lutar não chegou nem perto do número previsto, criando dúvidas se o Brasil conseguiria realmente participar da guerra. Nenhum militar aceitava o convite para comandar uma força expedicionária nacional, feito pelo ministro da guerra, Eurico Dutra. Só em agosto de 1943 a FEB - Força Expedicionária Brasileira - foi oficialmente criada, com o início da convocação de reservistas, na tentativa de atingir uma meta razoável de homens aptos para servir. Depois de muita espera, o General Mascarenhas de Moraes finalmente aceitou o desafio de comandar o efetivo brasileiro.  Havia urgência em receber material bélico americano, seguir com a formação de bons soldados, treiná-los e enviá-los para onde quer que fosse determinado pelo comando Aliado. No começo de 1944, o general Mascarenhas foi mandado numa missão de reconhecimento do teatro de operações do Mediterrâneo, onde havia cerca de 20 divisões Aliadas lutando na Itália, para onde seguiram depois que derrotaram as forças do Eixo no Norte da África. Nesta fase da guerra, ainda se acreditava no roteiro idealizado pelo primeiro ministro inglês, Winston Churchill: subir a bota italiana e avançar pela Áustria até Berlim. De volta ao Brasil, Mascarenhas acompanhou os preparativos da FEB.

O primeiro contingente da FEB, com mais de cinco mil integrantes vindos de todas as partes do Brasil, em fim zarpou em julho de 1944, do Rio de Janeiro rumo à Itália. Outros quatro embarques subsequentes totalizaram mais de vinte e cinco mil homens enviados para lutar no front italiano. Mesmo depois do emblemático Dia D – o desembarque Aliado na Normandia - a guerra na Itália continuava inclemente, exigindo vultuosos esforços para manter ocupado o maior número possível de efetivos alemães, que tinham cerca de trinta divisões lutando no território italiano. Estes inimigos bem treinados, experientes  e com vantagem estratégica é que os brasileiros teriam pela frente nas montanhas e vales do norte da Itália, sob sol, chuva e neve. Os brasileiros provariam seu valor em campo de batalha, lutando ao lado dos americanos do V Exército, numa saga de valor e coragem que precisa ser contada nos dias de hoje.

 

João Barone é mais conhecido como o baterista da banda PARALAMAS DO SUCESSO. Além disso, Barone é um dos brasileiros que mais entendem sobre a participação do nosso país na Segunda Guerra Mundial, tendo escrito dois livros sobre o assunto e produzido o especial O CAMINHO DOS HERÓIS, que estreia no HISTORY na quinta, dia 31 de julho, às 23H.