GUERRA DO PARAGUAI

Jovita: a heroína esquecida que fingiu ser homem para lutar na Guerra do Paraguai

Uma das histórias mais surpreendentes da Guerra do Paraguai envolve uma jovem nascida no interior do Piauí. Em 1865, aos 17 anos, Jovita Alves Feitosa resolveu se alistar como voluntária para lutar no conflito. Como a admissão de mulheres era proibida, ela cortou os cabelos com uma faca e vestiu-se com roupas de homem para se apresentar ao Exército em Teresina. A adolescente chegou a ser aceita, mas logo sua verdadeira identidade foi descoberta.

A história da corajosa soldada é contada no livro Jovita Alves Feitosa, Voluntária da Pátria, Voluntária da Morte, de José Murilo de Carvalho. De acordo com a obra, quando a jovem foi questionada pelos oficiais sobre o motivo para seu alistamento, ela chorou e respondeu que queria "matar paraguaios". A adolescente teria ficado revoltada com a morte de brasileiros no front e com o modo como os soldados paraguaios tratavam as brasileiras. Jovita tinha a intenção de vingar as mulheres abusadas pelos combatentes inimigos. 

Mesmo com o impedimento de mulheres lutarem na guerra, Franklin Doria, presidente da província do Piauí, resolveu aceitá-la como voluntária no posto de segundo-sargento. Seu alistamento funcionaria como uma espécie de propaganda para estimular o alistamento de outros combatentes voluntários. 

Assim, Jovita embarcou com outros voluntários por uma espécie de "turnê" pelo Brasil. O navio no qual viajava passou por diversas capitais durante a viagem de Teresina ao Rio de Janeiro. Na então capital federal, a jovem se tornou praticamente uma celebridade. Ela foi homenageada em teatros lotados e louvada em textos patrióticos nos jornais. Apesar disso, ela recebeu várias críticas preconceituosas. Um artigo publicado no Diário de São Paulo lamentou a decisão do Piauí de “receber uma sujeitinha como voluntário da pátria”.

A trajetória de Jovita no exército acabou durando pouco. Apenas 37 dias depois de embarcar com os voluntários, ela foi novamente rejeitada. Decepcionada, a jovem retornou ao Piauí, onde ficou por um tempo antes de partir de volta para o Rio de Janeiro. A partir daí, sua história é cheia de lacunas. Há relatos de que ela tenha trabalhado com prostituta antes de suicidar em 1867 (supostamente motivada por uma desilusão amorosa). Em 27 de março de 2017, o nome de Jovita Alves Feitosa foi inscrito no Livro dos Heróis da Pátria, guardado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília.


Fontes: O Globo e Folha de S. Paulo

Imagem: Domínio Público, via Wikimedia Commons