IMIGRAÇÃO

Milhões de cidadãos dos EUA foram deportados para o México na Grande Depressão

 Na década de 1930, o Departamento do Bem-Estar Social de Los Angeles começou a deportar pacientes hospitalares de ascendência mexicana. Uma das pacientes estava com lepra e foi deixada em Mexicali, no México. Outros tinham tuberculose, paralisia, doenças mentais ou problemas relacionados à velhice. Isso não impediu, no entanto, que agentes do governo o abandonassem do lado mexicano da fronteira.

Essas foram algumas das ações informais de repatriação que aconteceram em massa durante a Grande Depressão. Segundo uma pesquisa conduzida por Joseph Dunn, um ex-senador da Califórnia, cerca de 1,8 milhão de pessoas foram deportadas para o México naquela época, sendo que 60% eram cidadãos dos Estados Unidos. Para eles, a deportação não era uma repatriação, mas um exílio.

A lógica por trás dessas ações era que os imigrantes mexicanos estavam supostamente utilizando recursos e tomando empregos de cidadãos dos EUA afetados pela Grande Depressão. Essas deportações não aconteceram somente na fronteira de estados como a Califórnia ou o Texas, mas também do Michigan, Colorado, Illinois, Ohio e Nova York. Em 1931, um cidadão dos EUA nascido em Detroit, chamado José Lopez, testemunhou diante de um comitê na Califórnia que sua família foi deportada para Michoacán, no México, em 1931. Segundo ele, seus pais e um irmão morreram no México e ele e outros irmãos conseguiram retornar à terra-natal em 1945.

Famílias e comunidades inteiras foram separadas, causando um trauma também nos cidadãos dos EUA de origem mexicana que ficaram no país. Outra ex-senadora da Califórnia, Martha M. Escutia, disse que seu avô, imigrante mexicano e morador de Los Angeles, não ia a lugar algum sem o passaporte, com medo de ser deportado, mesmo após ter se naturalizado.

Segundo o professor de leis públicas e estudos mexicanos da Universidade Davis, School of Law, na Califórnia, Kevin R. Johnson, todas essas repatriações foram ilegais, pois não houve nem um amparo e nem processo legal que as legitimassem. Em vez disso, policiais e agentes governamentais simplesmente prendiam as pessoas e as colocavam em caminhões, ônibus ou trens com destino ao México, sem interessar se elas eram imigrantes ou mesmo cidadãos nativos. As prisões eram realizadas em locais públicos frequentados por mexicanos.

Segundo Johnson, essas repatriações eram muito diferentes do que vem acontecendo hoje. “Ainda que o governo da época tenha processado 44 mil pessoas sob a seção 1325 da lei de imigração – a mesma que criminaliza a entrada não autorizada atualmente -, esses processos não tinham relação com as deportações em massa, que eram informais e sem nenhum processo que as amparasse”, explica. “Além disso, hoje há muitos advogados atuando em defesa dos imigrantes, o que não acontecia em 1930”, conclui o pesquisador.

Mesmo não havendo nenhuma lei que autorizasse as deportações, a administração do Presidente Herbert Hoover, que tinha como slogan “Empregos dos EUA para pessoas dos EUA de verdade”, implicitamente as aprovava. Algumas leis na época impediam que mexicanos conseguissem empregos no governo, enquanto algumas empresas, como Ford, U.S. Steel e Southern Pacific Railroad concordaram em despedir trabalhadores de origem mexicana.

Economistas modernos divulgaram em um artigo em 2017, pelo National Bureau of Economic Research, que, ao contrário do que se pensava, as deportações não estimularam as economias locais. “A repatriação de mexicanos, que eram principalmente trabalhadores rurais, reduziu a demanda por outros empregos ocupados principalmente por nativos, em áreas administrativas e gerenciais. Na verdade, nossas estimativas sugerem que elas possam ter aumentado ainda mais os níveis de desemprego e diminuído os salários”, diz o artigo.

O presidente Hoover perdeu as eleições em 1932 porque os eleitores o culpavam pela crise. O presidente seguinte, Franklin Delano Roosevelt, não sancionou e nem proibiu as “repatriações”. Elas continuaram acontecendo em seu governo e só acabaram na Segunda Guerra Mundial, quando os EUA começaram a recrutar mexicanos para trabalhos de guerra.                                         

Em 2005, o senador Joseph Dunn ajudou a aprovar o “Ato de Desculpas pelo Programa de Repatriação Mexicana de 1930”. A Califórnia deportou cerca de 400 mil pessoas na época, e o ato pedia desculpas oficiais “pelas violações de liberdades civis básicas e diretos constitucionais cometidas durante o período de deportação ilegal e emigração coagida”. Em 2013, o estado da Califórnia também inseriu os estudos dessas repatriações em escolas públicas.


Fonte: History.com

Imagem:  Dorothea Lange/FSA/New York Public Library/Reprodução, via History.com