PROJETO LIVRO AZUL

As misteriosas bolas de fogo verdes que preocuparam o governo dos EUA em 1948

Em fevereiro de 1949, o jornal Los Alamos, do Novo México, publicou um artigo sobre discos voadores e uma possível teoria da conspiração: “Los Alamos possui agora bolas de fogo verdes voadoras. Elas são vistas geralmente às 2 da manhã, de acordo com a polícia local. Sua presença está sendo comentada nos bares de Santa Fé. Mas não há nenhuma declaração oficial sobre esse fenômeno”. O artigo finaliza com “Você viu alguma luz verde ultimamente?”.

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Na verdade, muitas pessoas as tinham visto, o suficiente para que a revista TIME, em novembro de 1951, publicasse um artigo sobre o fenômeno chamado “Great Balls of Fire”. E o mais alarmante, particularmente para o governo dos Estados Unidos – era que os avistamentos estavam concentrados nos laboratórios de armas atômicas de Los Alamos e Sandia. E outras instalações militares, incluindo estações de radar, ficavam bastante próximas. Isso significava que os relatos eram feitos por pilotos, meteorologistas, cientistas, oficiais de inteligência e outros membros da defesa do país, levando muitos a suspeitar que as bolas de fogo eram dispositivos de espionagem soviéticos.

Seriam meteoros?

Na noite de 5 de dezembro de 1948, duas tripulações de aviões relataram ter visto uma "bola de fogo verde", indo do oeste para o leste. Em um desses casos, a bola de fogo voou em direção do avião, obrigando o piloto a desviar de seu caminho.

Um piloto, algum tempo depois, descreveria vividamente as bolas de fogo verdes: “Pegue uma bola macia e pinte-a com algum tipo de tinta fluorescente verde que brilha no escuro… Então peça a alguém que deixe a bola 30 metros à sua frente e 10 metros acima de você. Peça-lhe para jogar a bola diretamente no seu rosto, tão forte quanto ele puder. É assim que eu descreveria essa bola de fogo verde”.

Quando uma equipe de oficiais de inteligência, liderada pelo Dr. Lincoln LaPaz, chefe do Instituto de Meteoritos da Universidade do Novo México, traçou a trajetória da bola de fogo e vasculhou a área onde ela teria caído, se fosse um meteorito, nenhum fragmento e nenhuma evidência foram encontrados.

Mais avistamentos

Os inexplicáveis ​​avistamentos continuaram no local, nos dias 6, 7, 8, 11, 13, 14, 20 e 28 de dezembro. O dia 20 de dezembro foi um ponto de virada, particularmente alarmante para aqueles que se apegavam à teoria de que se tratavam de meteoros. Os objetos desceram dos céus em um ângulo de 45 graus, e depois se nivelaram em uma linha horizontal, desafiando a gravidade.

Nos anos seguintes, os relatos de avistamentos de bolas verdes se espalharam por todo o mundo, do Canadá à África do Sul. Em junho de 2018, uma bola de fogo verde fez uma aparição impressionante na Holanda, em um show do Foo Fighters (coincidentemente, o nome da banda faz referência aos óvnis avistados durante a Segunda Guerra Mundial). E, de acordo com a International Meteor Organization, naquela noite aconteceram mais de 170 avistamentos de bolas de fogo, em pelo menos cinco países europeus. A reação da banda, de acordo com sua conta oficial no Twitter, foi algo como: "O céu é uma grande vizinhança".

Uma forma de relâmpago?

O fenômeno chamou a atenção do físico australiano Dr. Stephen Hughes em 2006, quando várias bolas de fogo verdes foram vistas no céu em Queensland e Nova Zelândia. "Cheguei à conclusão de que havia algo estranho", diz ele.

Hughes escreveu um artigo que teorizava uma possível conexão entre bolas de fogo verdes e o bem documentado, mas ainda pouco compreendido, fenômeno dos relâmpagos esféricos - misteriosos círculos de eletricidade que só foram levados a sério pela ciência a partir dos anos 60, bem depois dos avistamentos do Novo México.

Ainda não há uma teoria conclusiva sobre o que são os relâmpagos esféricos, mas as hipóteses incluem antimatéria, bolhas de luz, interferência de micro-ondas, pós-imagens da retina, nós eletromagnéticos e até mesmo buracos negros primordiais.

Dr. Hughes acredita que sua teoria sobre os raios esféricos se encaixa perfeitamente na descrição das bolas de fogo do Novo México: ar eletrificado. “Ocorreu-me que, às vezes, quando algo dispara pela atmosfera, como um meteoro, poderia estar criando um caminho condutor da ionosfera -  um oceano de plasma acima da Terra - até o chão. O ar então ficaria eletrificado”.

A cor verde fluorescente, segundo o Dr. Hughes, se dá devido ao oxigênio ionizado, que também corresponde ao verde da aurora boreal.

Nave espiã da Guerra Fria ... ou sondas extraterrestres?

Essa explicação em potencial não poderia ter ocorrido às pessoas no Novo México em 1948. Depois de entrevistar mais de cem testemunhas, o Dr. LaPaz continuou a aconselhar os militares e a Comissão de Energia Atômica sobre sua opinião de que as bolas de fogo eram provavelmente dispositivos de guerra não convencionais sendo testados pelos EUA ou ainda equipamentos de espionagem soviéticos.

Edward J. Ruppelt, diretor das investigações sobre óvnis do Projeto Livro Azul, da Força Aérea dos Estados Unidos, visitou o Laboratório Nacional de Los Alamos no início de 1952. Após entrevistar cientistas e técnicos, ele observou que eles ficaram particularmente animados quando foi sugerida a ideia de naves extraterrestres.

"Eles estavam pensando muito sobre isso e tinham uma teoria", escreveu Ruppelt no livro “The Report on Unidentified Flying Objects” (1953). “Eles acreditavam que as bolas de fogo eram realmente sondas extraterrestres projetadas em nossa atmosfera a partir de uma espaçonave pairando várias centenas de quilômetros acima da Terra".

Oficialmente, os investigadores do governo concluíram que as bolas de fogo verdes eram algum tipo de fenômeno natural nunca antes visto. As investigações sobre as bolas de fogo foram deixadas de lado no início da Guerra da Coreia.

“Tratar esses avistamentos como um fenômeno natural não resolveu o problema”, diz o especialista em óvnis Jan Aldrich, que acredita que as bolas de fogo verdes estavam relacionadas aos fenômenos aéreos observados em Fort Hood, no ­Texas, em 1949.

Resíduos de precipitação nuclear?

Mais recentemente, estudiosos sobre óvnis retomaram o assunto. Em seu livro “UFOs and Nukes: Extraordinary Encounters at Nuclear Weapons Sites”, de 2008, Robert Hastings, baseando-se em documentos oficiais, sugere que as trajetórias das bolas de fogo podem ser nuvens de detritos associados a testes atômicos ultrassecretos.

No entanto, segundo Dr. Hughes, as bolas de fogo verdes eram mesmo bolas de plasma flutuantes, com todos esses movimentos imprevisíveis, que sugerem que seus caminhos poderiam estar seguindo as linhas de campo elétrico acima da Terra.

"Pessoalmente, acho que a mudança errática de direção é uma prova razoavelmente conclusiva de que o fenômeno é de natureza elétrica", diz o Dr. Hughes, citando os ângulos mais conhecidos de um relâmpago no céu.

“Se o fenômeno dos relâmpagos esféricos fosse uma massa sólida, haveria uma enorme inércia, dificultando muito a explicação da fonte de energia para tal aceleração extrema. No caso de uma bola de plasma, não é necessária uma fonte de energia interna - da mesma forma que um relâmpago não precisa de algum tipo de motor de foguete elétrico para mudar rapidamente de direção em sua trajetória em direção ao solo ou entre as nuvens”.

No entanto, explicar o fenômeno como sendo relâmpagos esféricos equivale a explicar um mistério com outro mistério. “Acredito realmente de que existam óvnis”, diz o Dr. Hughes, que acha o nome adequado: “Eles são objetos voadores não identificados. Eu só não acredito que há pequenos homens verdes os controlando”, finaliza.


Fonte: History.com

Imagem: Mrs. Lincoln LaPaz, via History.com