50 ANOS DA CHEGADA DO HOMEM À LUA

Por que ativistas pelos direitos civis protestaram nos EUA contra a ida à Lua

Mais de um milhão de pessoas se juntaram ao longo da Costa da Florida para assistir o lançamento da nave Apollo 11 na tarde ensolarada de 16 de julho de 1969. O evento foi o ápice da corrida espacial iniciada pelo presidente John F. Kennedy, em 1963, com o objetivo de ultrapassar a União Soviética.

[NOITE ESPECIAL 50 ANOS DA CHEGADA DO HOMEM À LUA: 20/07, A PARTIR DAS 20H40]

Mas nem todos estavam comemorando. Um grupo de 500 pessoas, principalmente afro-americanas, liderado por Ralph Abernathy, concentraram-se nos arredores dos portões do Centro Espacial Kennedy alguns dias antes do lançamento. Eles trouxeram duas mulas e uma carroça de madeira, para ilustrar o contraste entre o glamoroso foguete Saturno V e as famílias que não tinham dinheiro para comprar comida ou um lugar decente para morar. 

Abernathy era um dos maiores apoiadores do Reverendo Martin Luther King. Após o assassinato do líder religioso, em abril de 1968, Abernathy liderou a “Marcha dos Pobres”, em Washington. Um ano depois, enquanto a NASA se preparava para o lançamento da missão Apollo 11, o pastor do Alabama conduziu um grupo de maioria afro-americana para mostrar à NASA e à mídia que nem tudo ia bem nas cidades do país.

“Houve um debate sobre o que os Estados Unidos representavam naquela época”, afirma Neil Maher, autor do livro “Apollo in the Age of Aquarius” (“Apollo na Era de Aquário”, na tradução), de 2017, e professor de história do New Jersey Institute of Technology. Maher aponta que o programa espacial Apollo dividiu os EUA entre apoiadores, que achavam que o feito iria alavancar um país que se encontrava perdido, e os que acreditavam que o programa era um enorme gasto de dinheiro, que deveria ser usado para sanar problemas sociais.

“Os EUA eram um país que estava gastando 20 bilhões de dólares para que dois homens pudessem aterrissar em uma rocha morta ou que tentaria solucionar alguns dos problemas mais próximos de casa, na Terra?”. Maher responde: “Muitos movimentos argumentavam que o dinheiro enviado à NASA deveria ser usado aqui”.

O protesto iniciou pacificamente, com a realização de uma vigília à luz de velas em frente aos portões da NASA, em 14 de julho, seguida por uma passeata em 15 de julho. Quando o administrador da NASA, Thomas Paine, saiu das dependências da agência espacial sob uma leve chuva para encontrar Abernathy e os outros, o grupo começou a cantar “We Shall Overcome”, e os canais de TV começaram a gravar a manifestação. Os manifestantes seguravam cartazes que diziam: “12 dólares por dia para alimentar um astronauta. Poderíamos alimentar uma criança com 8 dólares”.

Os dois homens – Paine, engenheiro formado em Stanford, e Abernathy, pastor batista do Alabama, também graduado em matemática – conversaram por alguns minutos. De acordo com Paine, Abernathy disse: “20% da população não possui alimentação adequada, nem moradia e nem assistência médica. Esse dinheiro, usado para o programa espacial, deveria ser utilizado para alimentar os famintos, vestir os que não têm roupa, tratar os doentes e dar moradia aos sem-teto”. 

Abernathy contou a Paine que ele tinha três pedidos para fazer à NASA, que 10 famílias de seu grupo tivesse autorização para ver o lançamento, que a NASA apoiasse o movimento pelo combate à pobreza, à fome e a outros problemas sociais, e que os técnicos da agência trabalhassem para resolver o problema da fome. 

“Se pudéssemos resolver o problema da pobreza nos Estados Unidos apenas deixando de apertar o botão de lançamento para levar o homem à Lua, nós com certeza, não apertaríamos esse botão”, disse Paine à mídia. Ele também adicionou que esperava que Abernathy utilizasse o programa espacial como um estímulo para que a nação resolvesse outros problemas em outras áreas tão corajosamente como a NASA fazia com os desafios espaciais.

O encontro terminou com os dois homens apertando as mãos. Paine ofereceu ingressos ao grupo de Abernathy para assistir ao lançamento da Apollo 11 em área VIP no dia seguinte. Abernathy então rezou pela segurança dos astronautas e disse estar orgulhoso da realização, como todas as pessoas do país.

“Na véspera da mais nobre aventura humana, estou profundamente comovido pelas conquistas do país no espaço e pelo heroísmo dos três homens que estão embarcando rumo à Lua”, disse, segundo uma notícia da UPI (United Press International). No entanto, acrescentou: “Exigimos que as mesmas conquistas feitas em prol da exploração do espaço sejam realizadas pelas pessoas famintas”.

“O protesto de Abernathy foi um exemplo de que o programa Apollo não aconteceu dentro de uma bolha. Ele estava muito conectado a tudo o que estava acontecendo de errado no país”, afirma Teasel Muir-Harmony, autor de “Apollo to the Moon: A History in 50 Objects” (“Apollo à Lua: Uma História em 50 Objetos”, na tradução) e curador de história espacial no Smithsonian National Air and Space Museum. 

Nos meses e anos que se seguiram ao encontro, a NASA tentou cumprir as promessas que Paine fez em Cabo Canaveral. Os engenheiros da NASA utilizaram os sensores inicialmente usados para detectar contaminação nas cápsulas espaciais para medir a poluição urbana do ar. Outro projeto utilizou o material de isolamento das naves espaciais para construir paredes e janelas para moradias públicas. Mas Maher diz que os esforços não foram o suficiente. “Foi algo mais publicitário”, argumenta.

O pouso da Apollo 11 na Lua, em 26 de julho de 1969, foi, para muitos, o apogeu do apoio popular à NASA. Um ano depois, Gill Scott-Heron lançou uma crítica às missões espaciais, “Whitey on the Moon” (ou "Branquelos na Lua", uma música que está na trilha sonora do filme “O Primeiro Homem”, de 2018). E, nos anos seguintes à missão, o apoio popular à exploração espacial minguou. O foco da nação estava na Guerra do Vietnã, e os protestos e movimentos pediam por direitos civis, direitos das mulheres e preservação do meio-ambiente. 

Na década de 70, aconteceram as últimas missões à Lua e o presidente Richard Nixon rejeitou o pedido da NASA de construir uma estação na Lua que poderia ser usada como base para a exploração de Marte. 

“Nós precisamos nos basear nos sucessos do passado, sempre buscando novas conquistas”, disse Nixon em 7 de março de 1970. “Mas precisamos também reconhecer que muitos problemas críticos aqui nesse planeta têm uma prioridade mais alta em atenção e recursos”


Fonte: History.com

Imagens: Bettmann Archive, via History.com