GENÉTICA

Queixo protuberante de família real europeia é fruto de relações consanguíneas, diz estudo

A Casa de Habsburgo foi uma dinastia de nobres que governou diversos países da Europa, como a Áustria, Países Baixos, Portugal e Espanha entre os séculos XV e XX. Vários membros da família apresentavam uma deformidade conhecida como "Queixo Habsburgo". Um novo estudo confirma que as mandíbulas protuberantes apresentadas por esses indivíduos foram  resultado de relacionamentos consanguíneos.

Gerações desses casamentos entre parentes garantiram a influência dos Habsburgo no território europeu durante séculos. Mas eles também resultaram em problemas genéticos, como o prognatismo mandibular, responsável pelo queixo acentuado de alguns nobres. A condição é caracterizada pelo lábio inferior proeminente e ponta nasal saliente. Os portadores desta enfermidade podem ter dificuldade na mastigação e na deglutição, além de apresentar distúrbios da fala e certa inabilidade em fechar a boca. 

Retrato de Maximiliano I pintado por Albrecht Dürer, via Wikimedia Commons

Para o estudo, publicado na revista Annals of Human Biology, os pesquisadores reuniram 10 cirurgiões maxilofaciais com o objetivo de diagnosticar deformidades faciais em 66 retratos de 15 membros da dinastia Habsburgo. Apesar das diferenças no estilo artístico, os retratos são caracterizados por uma abordagem realista do rosto humano.  Os retratos fazem parte dos acervos de alguns dos museus de arte mais importantes do mundo, como o Museu Kunsthistorisches, em Viena, e o Museu do Prado, em Madri.

Retrato de Margarida da Áustria pintado por Bernard van Orley, via Wikimedia Commons

Os cirurgiões deram notas para o grau de prognatismo mandibular e deficiência maxilar em cada membro da família Habsburgo. Maria da Borgonha, que se casou com um parente em 1477, mostrou o menor grau de ambas as características. O prognatismo mandibular foi mais pronunciado em Filipe IV, rei da Espanha e Portugal, de 1621 a 1640. A deficiência maxilar foi diagnosticada com maior grau em cinco membros da família: Maximiliano I (regente a partir 1493), sua filha Margaret da Áustria, seu sobrinho Carlos I da Espanha, o bisneto de Carlos, Filipe IV, e o último representante da dinastia Habsburgo na Espanha, Carlos II. Segundo relatos históricos, Carlos II – apelidado de “o enfeitiçado” – era física e mentalmente incapacitado, provavelmente pela conjunção de doenças genéticas causadas por gerações de relações consanguíneas. 

Retrato de Filipe IV pintado por Diego Velázquez, via Wikimedia Commons

Os autores do estudo concluíram que a "mandíbula de Habsburgo" é resultado do compartilhamento de uma base genética comum. A extensão da consanguinidade foi calculada a partir de uma árvore genealógica que incluiu mais de seis mil indivíduos pertencentes a mais de 20 gerações. Os pesquisadores detectaram uma forte relação entre o grau de endogamia e o grau de prognatismo mandibular. "Mostramos pela primeira vez que há uma clara relação entre a consanguinidade e a aparência da mandíbula dos Habsburgos", afirmou o pesquisador Roman Vilas, da Universidade de Santiago de Compostela.

D. Pedro I, primeiro imperador do Brasil, se casou com uma Habsburgo, Maria Leopoldina, filha do imperador Francisco I da Áustria. Um artigo publicado na Revista Brasileira de Cirurgia Plástica em 2009 aborda o prognatismo mandibular discreto de D. Pedro II, filho primogênito da Imperatriz Leopoldina com D. Pedro I. Retratos do jovem Pedro II apontam que ele realmente possuía um queixo protuberante. Especula-se que depois de adulto ele passou a usar sua famosa barba para esconder a característica. 

Retrato de D. Pedro II aos 20 anos pintado por Johann Moritz Rugendas, via Wikimedia Commons


Fontes: Live Science e Revista Brasileira de Cirurgia Plástica 

Imagem: Retrato de Carlos II pintado por Juan Carreño de Miranda, via Wikimedia Commons