PROJETO LIVRO AZUL

Teste brutal de gravidez é descrito no primeiro relato de abdução alienígena registrado

"Será que aquilo está nos perseguindo?". Esse pensamento tomou as mentes de Betty e Barney Hill enquanto percorriam a estrada rural vazia e sinuosa das Montanhas Brancas de New Hampshire. Era uma noite de setembro de 1961, quase não havia carros e uma estranha luz no céu parecia segui-los.

Nova série: PROJETO LIVRO AZUL, SÁBADO, ÀS 22h30

Quando finalmente chegaram em casa, em Portsmouth, ao amanhecer, estavam longe de estarem aliviados. Eles se sentiam sujos. Seus relógios pararam de funcionar. Os sapatos de Barney estavam estranhamente gastos e o vestido de Betty estava rasgado. Nenhum deles conseguia lembrar de um período de duas horas durante a viagem. O que tinha acontecido?

Com a ajuda de um psiquiatra, o tranquilo casal acabou revelando uma história surpreendente: seres de cor cinza com grandes olhos os haviam conduzido a um enorme disco metálico. Uma vez lá dentro, os seres examinaram o casal e apagaram suas memórias.

A experiência do casal daria início a uma investigação da Força Aérea, parte da iniciativa secreta Projeto Livro Azul, que investigou os avistamentos de óvnis em todo o país. O incidente também se tornaria o primeiro relato amplamente divulgado de uma abdução por alienígenas. O debate no momento era sobre se o marido e mulher eram mentirosos, malucos ou simplesmente pessoas privadas de sono com memórias distorcidas.

Perseguidos por estranhas luzes

A viagem dos Hill foi uma pausa na rotina que Barney decidiu que o casal precisava, como explicado no livro “The Interrupted Journey” ("A Jornada Interrompida", em tradução livre), de 1966, do autor John G. Fuller. Barney trabalhava nos correios, no turno da noite, dirigindo quase 100 quilômetros por dia. O trabalho de Betty, de assistente social, lidando com casos de crianças todos os dias, também era estressante. O pouco tempo livre que o casal tinha era dedicado à igreja e às atividades relacionadas ao movimento pelos direitos civis (ele era negro e ela branca). Após 16 meses de casados, essa viagem por Montreal e as Cataratas do Niagara seria uma lua de mel atrasada. Os dois saíram tão impulsivamente de casa que nem tiveram tempo de passar no banco para retirar dinheiro, e tinham menos de U$ 70 no bolso.

Na última noite de sua viagem de três dias, o casal, já cansado, tomou um café em um restaurante de Vermont para recarregar as energias antes de pegar a estrada de volta. Barney achou que, se voltassem rapidamente, não pegariam um furacão que estava se aproximando. Eles deixaram o restaurante por volta das 22h, e pretendiam chegar em Porsmouth, New Hampshire entre 2h e 3h da manhã.

Na estrada, uma estranha luz no céu os deu uma razão ainda maior para se apressarem. No começo, eles acharam que se tratava de uma estrela cadente, mas ela foi ficando maior e mais brilhante a cada quilômetro. Barney, um ávido observador de aviões e veterano da Segunda Guerra Mundial, tinha certeza de que não havia nada para se preocupar.

A luz pareceu se mover com o carro, ziguezagueando junto com o veículo, passando pela lua e por trás de árvores e montanhas, e reaparecendo momentos depois. O casal então ficou curioso e parou em um acostamento para olhar a luz mais de perto. Com um binóculo, Betty percebeu que a luz branca era na verdade um objeto girando no ar.

O encontro

Barney, que tinha um QI de 140, de acordo com o livro de Fuller, sabia que tinha algo estranho. Barney também era um homem pragmático, que não perderia tempo pensando em disco voadores, de acordo com a sobrinha Kathleen Marden em seu artigo “Captured: The Betty e Barney Hill Experience” ("Capturados: A Experiência de Betty e Barney Hill", em tradução livre). A noite estava muito quieta para ser um helicóptero, um avião comercial ou mesmo um jato militar. Barney não queria assustar Betty, mas a verdade é que ele estava ficando preocupado. O que era essa luz e por que estava brincando com eles?

Aproximadamente 100 quilômetros depois, o objeto continuava pairando a cerca de 30 metros acima deles, quando Barney parou abruptamente o carro, mantendo o motor ligado. Ele pegou uma arma que estava embaixo do banco do motorista e correu para um campo escuro, deixando Betty no carro. O que ele viu era grande como um avião, mas redondo e plano como uma panqueca. Ele pensou: “Meu Deus, o que é isso? Não pode ser real!”.

Entre fileiras de janelas, seres de cor cinza, uniformizados, pareciam olhar diretamente para ele. Ele tentou apontar sua arma, mas não conseguiu, por algum motivo. De acordo com seu relato, foi quando uma voz disse para ele não baixar seu binóculo.

Ele pensou: “Seremos capturados”. Gritando histericamente, Barney correu de volta para o carro e acelerou, enquanto Betty seguia a nave, com a cabeça para fora da janela. Sem explicação, um bipe alto e ritmado vinha do porta-malas do carro. O casal sentiu-se imediatamente sonolento e perdeu a consciência, retomando-a somente cerca de duas horas e cerca de 60 quilômetros depois.

Recuperando a memória

De volta a casa, em Portsmouth, eles tentaram entender o que havia acontecido naquela noite. Barney sentiu-se compelido a examinar a metade inferior de seu corpo. Ambos pareciam conscientes de uma presença intrigante.

Nas semanas e meses seguintes, Betty, uma ávida leitora, buscou livros na biblioteca e descobriu um grupo de civis que investigavam óvnis, o NICAP (National Investigations Committee on Aerial Phenomena). Ela também relatou o avistamento para a Força Aérea, preocupada com a radiação.

Nos anos seguintes, Betty estava sofrendo com sonhos perturbadores e Barney desenvolveu uma úlcera e ansiedade, e assim o casal buscou ajuda psiquiátrica. Os dois se encontraram com Benjamin Simon, um psiquiatra e neurologista especializado em hipnose, uma técnica predominante na época.

Em meses de sessões semanais, Simon ajudou o casal a relembrar os momentos que passaram naquela noite: uma nave pousou no carro dos Hill e, após os sedar, seres acinzentados os conduziram por uma longa rampa, para dentro de sua espaçonave.

Lá dentro, o casal foi separado, revezando-se em uma sala de exames que tinha paredes curvas e uma grande luz pendurada no teto. Cada um foi convidado a subir em uma mesa de metal. A mesa era tão estreita que as pernas de Barney ficavam penduradas na lateral.

Durante os exames, os seres removeram as roupas de Betty e Barney, e arrancaram fios de cabelo, pedaços de unha e pele. Cada amostra foi colocada em uma lâmina de vidro. Agulhas conectadas a longos fios estavam presas em suas cabeças, braços, pernas e costas. Uma agulha grande, de cerca de 10 centímetros de comprimento, foi inserida na barriga de Betty. Esse teste de gravidez a causou muita dor. Durante todo esse tempo, um ser, que Barney e Betty tratam como “o líder”, assistia os experimentos.

Depois que o exame de Betty terminou, os seres correram para a sala dela, animados. Eles descobriram que os dentes de Barney poderiam ser removidos. Betty riu, explicando que Barney tinha dentaduras, um fator do envelhecimento humano que os seres não conseguiam entender.

Mais tarde, sozinha com o líder, Betty perguntou de onde a nave havia vindo, admitindo que conhecia pouco do universo. O ser brincou com ela, dizendo: "se você não sabe onde você está, não faria sentido dizer de onde vim." Mais tarde, sob hipnose, ela desenhou um mapa de estrelas mostrado a ela na espaçonave.

Em 1965, a história dos Hills foi contada por um jornal de Boston. Depois disso, tudo mudou. A aventura do tranquilo casal tornou-se tema de um livro best-seller e um filme estrelado por James Earl Jones.  


Barney mostra um diagrama explicando a abdução alienígena

Um padrão para as abduções alienígenas

Os Hill não foram os primeiros a avistar um óvni, nem mesmo os precursores da abdução. Mas a história deles ficou tão marcada na imaginação do país e foi tão amplamente divulgada que ajudou a padronizar a maneira como hoje falamos sobre abduções.

Antes da história de Hill, os encontros com alienígenas eram amistosos, de acordo com Christoper Bader, professor de sociologia da Universidade Chapman, na Califórnia. Alguns alienígenas inclusive viviam na Terra e voltavam aos seus planetas nos finais de semana. Mas uma vez que a história do casal ficou mais conhecida, os relatos de abdução começaram a compartilhar certas características, como exames médicos em um curto espaço de tempo. Alienígenas acinzentados, com cabeças e olhos grandes, em óvnis redondos, tornaram-se clássicos da ficção científica e da cultura pop, como no filme “Contatos Imediatos de Terceiro Grau” e na série “Arquivo X”.

A história dos Hill - e as que vieram depois - ajudou a preparar o caminho para uma nova compreensão da experiência humana. Richard J. McNally, um psicólogo de Harvard, coloca desta forma: “O fenômeno da 'abdução alienígena', na minha opinião, mostra como indivíduos sinceros e não psicóticos podem desenvolver crenças e falsas memórias de experiências incríveis que nunca aconteceram”.

Especialistas de todos os tipos tentaram explicar por que pessoas inteligentes e mentalmente estáveis ​​seguiram tendo essas experiências. Muitos psicólogos dizem que a paralisia do sono e alucinações podem ser uma causa. Algumas perguntas “tendenciosas” durante a hipnose - a principal maneira pela qual a maioria dos abduzidos conta suas histórias - também podem ser um fator.

Um olhar sobre o cérebro humano

As pessoas que relatam abduções podem ter uma visão de mundo diferente das outras. De acordo com o psicólogo, um dos mais fortes indicadores de falsas recordações é uma imaginação vívida. Esse grupo de pessoas tem uma alta "ideação mágica" e é mais propenso a acreditar em fantasmas e leituras de tarô, de acordo com McNally.

Algumas pessoas acreditam que a história não tenha passado de um mito, com protagonistas vulneráveis. Muitos apontam para o estresse de viver como um casal interracial em um estado predominantemente branco em uma época turbulenta. O ano da hipnose, 1964, foi marcado por tensões da Guerra Fria e pelo movimento dos direitos civis, com numerosos motins realizados naquele verão. Christopher Bader aponta: “Era um casal interracial em um momento em que não era fácil viver dessa forma. E veja o que esses alienígenas eram: uma mistura de preto e branco. Eu acho isso muito significativo”.

As histórias de abduzidos dependem de relatos das próprias “vítimas”, a forma mais vulnerável de evidência. Memórias podem ser distorcidas por estresse ou distração, ou mesmo fabricadas. Quando uma falsa memória se sobressai, dizem os psicólogos, o cérebro trabalha para preencher os detalhes. O psicólogo Michael Shermer aponta para a "padronicidade", ou seja, a tendência de ver padrões mesmo quando não há nenhum, o que nos propicia a enxergar rostos nas nuvens, por exemplo, ou achar que um acontecimento causou outro.

Experiências passadas também moldam a percepção humana. Barney, veterano da Segunda Guerra Mundial, achava que a cabeça "cinza" era parecida com Hitler, e tão ameaçadora quanto. Betty, por sua vez, estava animada com os alienígenas, tagarelando com o ser afável que realizava seu exame médico. O alienígena até concordou em dar-lhe um livro para que ela trouxesse à Terra com ela, mas, posteriormente, outros membros da tripulação anularam essa decisão.

Dessa forma, histórias de abduções e encontros com alienígenas ajudaram os psicólogos a entender o cérebro humano, e aspectos como fraquezas inerentes à memória e a relatos de acontecimentos, segundo Christopher French, psicólogo especializado em experiência humana relacionada ao paranormal. "O que vemos e ouvimos, especialmente sob condições de observação menos que ideais, pode ser fortemente influenciado por nossas crenças e expectativas anteriores", escreveu French no The Guardian.

O consultor científico do NICAP fez uma análise da história do casal e a considerou verossímil.  O Projeto Blue Book, da Força Aérea, acabaria por rejeitá-la, determinando que o óvni poderia ser explicado por "causas naturais" - sugerindo que o casal não tinha visto uma espaçonave, mas apenas o planeta Júpiter.

O psiquiatra Simon, por sua vez, não acredita que os Hill inventaram essa história. Ele concluiu que Betty havia sonhado com a abdução e Barney havia absorvido sua história, especialmente porque muitos dos detalhes mais vívidos combinavam com as descrições dos sonhos que Betty havia anotado após o evento. "Acredito implicitamente na honestidade dessas pessoas", disse ele em um programa de rádio dos anos 70.

É claro que há outra explicação: a abdução realmente ocorreu. Como muitos abduzidos, o casal nunca sentiu que seu relato viesse de falsas memórias ou da paralisia do sono. Betty tornou-se uma voz conhecida na pesquisa de óvnis e alegou ter sido visitada várias vezes nas décadas seguintes.


Fonte: History.com

Imagens: Universal History Archive/Getty Images, via History.com