SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Vaticano abre arquivos do papa Pio XII, acusado de ter sido "conivente com o nazismo"

O Vaticano está abrindo os arquivos secretos do papa Pio XII, acusado por críticos de ter sido conivente com o nazismo durante a Segunda Guerra Mundial. Ao anunciar a iniciativa, o papa Francisco disse que "a Igreja não tem medo de segredos". Inicialmente, os documentos serão disponibilizados para um pequeno grupo de estudiosos.

Críticos de Pio XII acusaram o papa de ter ficado calado durante o Holocausto, pois ele não teria condenado publicamente a perseguição e o genocídio de judeus e outros grupos que foram alvo do nazismo. Já seus defensores alegam que ele encorajou discretamente conventos e outras instituições católicas a esconder milhares de judeus. Eles argumentam que se o papa tivesse feito críticas públicas aos nazistas, teria colocado em risco a vida de padres e freiras.

Depois de Pio XII ter sido  eleito papa, seis meses antes do início da guerra, o Vaticano manteve relações diplomáticas com o Terceiro Reich, e o novo pontífice se recusou a condenar a invasão nazista à Polônia em 1º de setembro de 1939. Em dezembro de 1942, Pio XII falou em termos genéricos sobre o sofrimento dos judeus, embora acredita-se que ele soubesse há vários meses sobre os planos de extermínio nazista. Em 1943, ele escreveu ao bispo de Berlim, argumentando que a igreja não poderia condenar publicamente o Holocausto por risco de causar "males maiores".

No controverso livro "O Papa de Hitler", publicado 1999, o escritor John Cornwell afirma que Pio XII era um "peão" do líder nazista. Outros historiadores, como Martin Gilbert, dizem que essa caracterização é um mito. Ele relembra que quase cinco mil judeus foram escondidos em mosteiros e conventos católicos em Roma durante a guerra, incluindo centenas deles no próprio Vaticano. No norte da Itália, outros milhares se esconderam na residência de verão do papa. Segundo ele, tudo isso aconteceu por orientação de Pio XII. Mais tarde, o próprio Cornwell afirmou que "é impossível julgar os motivos" do silêncio do papa durante a guerra.

Os arquivos que estão sendo divulgados contêm milhões de cartas, mensagens e correspondências de Pio XII, cujo pontificado durou de 1939 a 1958. Pesquisadores e grupos judaicos pediam há décadas a liberação desses documentos. Geralmente o Vaticano espera 70 anos após a morte de cada papa para abrir seus arquivos, mas o processo foi acelerado para esclarecer o debate a respeito de Pio XII, cujo processo de canonização se encontra suspenso. “Queremos expressar nossa enorme gratidão e agradecimento ao papa Francisco por dar esse passo", disse Menachem Rosensaft, vice-presidente executivo do Congresso Judaico Mundial.

O bispo Sergio Pagano, responsável pelo Arquivo Apostólico do Vaticano, disse que os estudiosos terão que fazer um julgamento histórico dos documentos. Segundo ele, levará anos até que o material seja avaliado completamente. "O bem [que Pio fez] foi tão grande que ofuscou suas poucas sombras", acredita. Entre os primeiros pesquisadores que terão acesso aos arquivos estão representantes da comunidade judaica em Roma e estudiosos dos Memoriais do Holocausto de Israel e dos Estados Unidos.


Fontes: The Guardian, Washingon Post e CNN

Imagem: Domínio Público, via Wikimedia Commons