BIG BANG

Você sabia que a teoria do Big Bang foi proposta por um padre e teve até aprovação do Vaticano?

Apesar do longo histórico de atritos entre a ciência e a religião, a moderna teoria do Big Bang foi elaborada por ninguém menos do que um padre. Georges Lemaître conseguiu conciliar sua fé católica com a ideia de uma criação do universo que não é exatamente a mesma apresentada no livro do Gênesis. Ao longo dos anos, o sacerdote-cientista conquistou a admiração de Albert Einstein e até mesmo a aprovação do Vaticano.

Nascido em 1894, na Bélgica, Lemaître desde cedo mostrou inclinações tanto para a física e a matemática quanto para sua vocação sacerdotal. Em 1913, ele se formou em engenharia pela Universidade Católica de Lovaina. Poucos anos depois, sua vida científica teve que ser interrompida devido à Primeira Guerra Mundial. Como primeiro-sargento do exército belga, Lemaître foi condecorado por bravura. Os horrores do conflito também influenciaram sua decisão de seguir o caminho religioso.

Após retomar os estudos, obteve um doutorado em Ciências Matemáticas, em 1920. No mesmo ano também começou a se preparar para a vida sacerdotal, entrando em um seminário. Dois anos depois, sua tese sobre a física de Einstein lhe rendeu uma bolsa de estudos do governo belga e a oportunidade de ir para a Universidade de Cambridge, na Inglaterra, para pesquisar astronomia. Quase ao mesmo tempo, foi ordenado padre, em 1923.

Em seguida, Lemaître foi para os Estados Unidos, onde estudou no MIT (Massachusetts Institute of Technology). Em 1927, na época em que se tornou professor de astrofísica na Universidade Católica de Lovaina, ele formulou uma teoria sobre a expansão do universo e a distância entre as galáxias, usando os princípios da Teoria da Relatividade Geral de Einstein. 

Em 1931, Lemaître publicou a primeira formulação explícita da teoria do Big Bang, inicialmente chamada de teoria do átomo primordial. No trabalho, ele defendia que todo o universo teve início em uma partícula hiperdensa e quente que explodiu e continuou a se expandir. A ideia teria causado desconfiança na comunidade científica, até porque Lemaître também era padre. A tese do universo estático dizia que não houve um momento em que tudo começou. Como a teoria de Lemaître apontava para um momento inicial, poderia haver uma sugestão implícita de que Deus teria sido o responsável pela explosão primordial.

Até mesmo a Igreja Católica teria tentado fazer essa interpretação da teoria de Lemaître, sugerindo que ela era uma evidência da existência de Deus. Em 1952, o papa Pio XII sugeriu em uma discussão realizada na Pontifícia Academia das Ciências que as recentes descobertas astronômicas confirmavam ou ao menos estavam em consonância com a página inicial do Livro do Gênesis, quando este descreve a criação do universo como um momento Fiat lux ("Faça-se a luz"). Em uma reunião pessoal solicitada expressamente pouco tempo depois, Lemaître teria dito ao pontífice que ele estava errado ao fazer comentários que misturavam a ciência com as Escrituras Sagradas. 

A conversa teria feito com que o papa recuasse em suas afirmações. Pouco depois, Pio XII realmente abandonou o discurso que tentava aproximar o Big Bang do Gênesis. "A ciência progride com grandes avanços, mas nunca será capaz de responder à pergunta final sobre a origem de todas as coisas", disse ele. Lemaître morreu em 1966, dois anos depois de ter escutado a notícia da descoberta da radiação cósmica de fundo de micro-ondas cósmicas, que era a prova definitiva de sua teoria astronômica fundamental do Big Bang.


“Essa foi a explicação mais bonita e satisfatória sobre a criação que eu já ouvi na vida”, disse Einstein sobre a teoria de Lemaître


Fontes: El País, Superinteressante e Inters.org

Imagens: Wikimedia Commons e Universidade Católica de Lovaina