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Atriz Léa Garcia, ícone do teatro, cinema e TV, morre aos 90 anos

Artista atuou em mais de cem produções e foi indicada ao prêmio de Melhor Interpretação Feminina no Festival de Cannes
Por History Channel Brasil em 15 de Agosto de 2023 às 11:14 HS
Atriz Léa Garcia, ícone do teatro, cinema e TV, morre aos 90 anos-0

A atriz Léa Garcia morreu em 15 de agosto de 2023, aos 90 anos, em Gramado (RS). Ela seria homenageada no tradicional festival de cinema da cidade, mas não resistiu a um infarto. A artista tinha no currículo mais de cem produções no teatro, cinema e televisão, tendo sido indicada ao prêmio de Melhor Interpretação Feminina no Festival de Cannes por seu papel no filme Orfeu Negro (1959).

Trajetória de Léa Garcia

Nascida na Praça Mauá, no Rio de Janeiro, em 1933, Léa Garcia tornou-se atriz em uma época na qual essa não era uma profissão comum para mulheres negras. Filha de Stela Lucas Garcia e José dos Santos Garcia, passou a morar com sua avó aos 11 anos, quando sua mãe morreu. Quando adolescente, ela se apaixonou pela poesia e admirava as obras de Cruz e Sousa e Langston Hughes, cujas obras a influenciaram nas reflexões sobre a situação do negro.

Léa Garcia em Paris
Léa Garcia em Paris (Imagem: Arquivo Nacional/Domínio Público, via Wikimedia Commons)

Desde jovem, demonstrou o desejo de se envolver com o universo artístico. Ainda adolescente, ela pretendia ser escritora e preparava-se para cursar a Faculdade de Filosofia quando conheceu o Teatro Experimental do Negro e ingressou na companhia liderada pelo dramaturgo e ativista Abdias do Nascimento. Sua estreia nos palcos aconteceu aos 19 anos, na peça Rapsódia Negra, do próprio Abdias (com quem se casaria e teria dois filhos).

No teatro, uma das peças de destaque que fez no início de sua carreira foi Orfeu da Conceição (1956), de Vinicius de Moraes. Cotada primeiro para ser Eurídice, Léa Garcia se encantou com a personagem Mira e conseguiu o papel. Um filme foi feito depois, a partir da peça, com o nome Orfeu Negro e direção do francês Marcel Camus. Em vez da Mira, a atriz viveu a Serafina no longa-metragem, papel que lhe rendeu uma indicação ao prêmio de Melhor Interpretação Feminina no Festival de Cannes, em 1957. O filme também foi premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1960.

A estreia de Léa na televisão aconteceu no Grande Teatro da TV Tupi, na década de 1950. Na emissora, participou também do programa Vendem-se Terrenos no Céu, em 1963. O convite para trabalhar na Globo surgiu em 1970, quando ela integrou o elenco de Assim na Terra como no Céu, de Dias Gomes. 

Na Globo, Léa também participou do primeiro programa gravado inteiramente em cores no país, Meu Primeiro Baile, episódio da série Caso Especial exibido em 1972. No mesmo ano, foi convidada para ser a Elza, uma secretária em Selva de Pedra, novela de Janete Clai. O maior sucesso da carreira de Léa foi seu papel como a vilã Rosa na novela Escrava Isaura (1976), um fenômeno de audiência no Brasil e no exterior. Foi a primeira personagem má interpretada por ela na TV, o que lhe rendeu também problemas, além do reconhecimento do público. A atriz sofreu inclusive violência física de pessoas que não conseguiam separar a personagem da vida real.

Nos anos seguintes, Léa continuou a atuar em cinema, TV e teatro. Depois de uma passagem pela TV Manchete, onde fez duas novelas na emissora, em seguida – Dona Beija (1986), de Wilson Aguiar Filho, e Helena (1987), de Mario Prata, a atriz voltou à Globo para atuar na minissérie Abolição (1988), de Wilson Aguiar Filho, produzida para marcar o centenário da abolição da escravatura. Alguns anos depois, Léa Garcia voltou para a TV Manchete, atuando nas novelas Tocaia Grande (1995), de Duca Rachid, Mário Teixeira e Marcos Lazarini, e em Xica da Silva (1996), de Walcyr Carrasco. 

Entre os filmes dos quais Léa Garcia participou ao longo de sua trajetória, está As Filhas do Vento (2005), vencedor de diversos prêmios no Festival de Gramado. Realizado por um diretor negro, Joel Zito Araújo, com um elenco de atores negros, a produção tem temática racial e conta uma história de redenção amorosa entre irmãs. Pelo filme, ela ganhou o Kikito de Melhor Atriz em Gramado. Em 1998, atuou em Cruz e Sousa - O Poeta do Desterro, de Sylvio Back. 

Léa Garcia também ficou conhecida por sua militância na luta contra o racismo e por seu compromisso em promover a representatividade negra nas artes e na sociedade como um todo. Nos últimos anos de carreira, Léa atuou em diversas produções da Rede Globo, como Êta Mundo Bom (2016), Mister Brau (2017) e Arcanjo Renegado (2020). Seu último papel foi na minissérie " Independências, da TV Cultura.
 

Imagens
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